

CULTURA SITUADA
Ciclo de conversas sobre Programação e Cidadania Cultural
SETEMBRO – DEZEMBRO 2026
QUINTAS-FEIRAS ÀS 18H
CAFÉ-CONCERTO DO CCC | CALDAS DA RAINHA
Com ponto de partida na Adenda dos Jovens à Carta do Porto Santo / Caldas da Rainha-Loulé, apresentada na MONDIACULT 2025 – UNESCO, em Barcelona, CULTURA SITUADA é um ciclo de seis conversas que traz para o espaço público as inquietações de jovens artistas, agentes e mediadores culturais das Caldas da Rainha sobre os desafios que moldam as suas práticas.
De setembro a dezembro de 2026, o Café-concerto do CCC acolhe seis encontros sobre sobre os seis temas da Adenda: participação cultural e cidadania; desigualdades no acesso à cultura; inclusão vs hierarquias e elitismo; cultura digital e desafios éticos; condições laborais dos trabalhadores da cultura e educação cultural e artística.
Ao longo dos encontros colocam-se os pontos da Adenda dos Jovens à Carta de Porto Santo / Caldas da Rainha-Loulé num recipiente-conversa, enquanto questões se intersetam, condicionam, transformam e amplificam mutuamente, através de uma diversidade de vivências e ferramentas que representam os coletivos e identidades que a constituem. Quem pode participar e em que condições? Quem decide, quem é representado e quem continua fora do radar? Que estruturas reproduzem desigualdades enquanto pregam vazias representatividades? O que acontece ao trabalho, à criação e à aprendizagem quando mudamos as condições em que a cultura existe?
No CCC, convidamos à fermentação de ideias numa proximidade tal que nos leve à germinação, em seis encontros para debater as possibilidades de expansão da Cultura, sem esterilizar o que é contraditório, imprevisível ou ainda informe. CULTURA SITUADA como um testamento de uma geração que está aqui e que tem muito a dizer.
Cada sessão reúne uma pessoa co-autora da Adenda na moderação, a voz de um coletivo cultural das Caldas, uma pessoa estudante de mestrado da ESAD.CR/ULO e uma especialista convidada, com autonomia e liberdade de abordagem, fomentando a dissensão reflexiva em torno de cada tema. Os conteúdos serão editados e publicados para gerar contributos e recursos, acessíveis nos formatos físico e digital, a partir das perspetivas de quem, jovem, intervém nas artes e na cultura, documentando as urgências atuais e apontando caminhos de reflexão e articulação intergeracional.
CULTURA SITUADA tem a curadoria de Jade Aura, Lígia Afonso e equipa de redatores da Adenda Jovem à Carta do Porto Santo Caldas da Rainha-Loulé, em colaboração com o CCC, a Cátedra UNESCO em Gestão das Artes e da Cultura, Cidades e Criatividade, o LiDA – Laboratório de Investigação em Design e Artes, o Mestrado em Gestão Cultural da Escola de Artes e Design de Caldas da Rainha – Universidade de Leiria e Oeste, e o Projeto Campus Cultural do Plano Nacional das Artes.
NOTA CONCETUAL
Há uma plasticidade na matéria viva que lhe permite a constante expansão cósmica. Aplicado à Cultura, são substâncias que se intersectam, que reagem e que resistem, outras que permanecem em suspensão até que uma nova condição desencadeie o seu período de ação. A Cultura expande-se através do contacto entre as suas mais diversas expressões, substâncias, fricções e contaminações. A sua mutação ocorre através de agentes nunca neutros, em incessante procura por alternativas que têm o potencial de perturbar, romper, questionar e reivindicar tudo aquilo que se mantém à porta das instituições, rumo à sua transformação estrutural. Cultura Situada surge deste princípio para cruzar vozes, universos, cosmos, experiências dissidentes e tensões que são transversais à vida cultural contemporânea.
PROGRAMA
24 SETEMBRO | 18H
Participação Cultural e Cidadania
Sara Brighenti (introdução), Jade Aura (moderação), com Guilherme Rocha, Tânia Martins e Luís Ferreira
O que significa participar na vida cultural para além de ser um corpo presente? Que lugar ocupamos e queremos ocupar nas instituições culturais: públicos a conquistar, destinatários passivos, ou mãos plásticas das estruturas que decidem, criam e programam? Partimos para esta conversa com a necessidade de mudar métodos, relações e formas de organização. Se os jovens devem estar no centro das decisões, que condições são necessárias para que essa participação seja efetiva? Como criar espaços de diálogo contínuo, onde diferentes perspetivas possam questionar, introduzir novos processos, partilhar responsabilidades? E como garantir que a representação interseccional da juventude não se reduz a um performativo preenchimento de quotas, e antes se traduz em poder de decisão, criação, mediação e programação? A participação cultural implica, assim, repensar quem tem lugar à mesa, que lugares são estes, quem serve e quem é servido, quem define os significados de cultura e como se distribui o poder dentro e fora das instituições.
15 OUTUBRO | 18H
Desigualdades no acesso à cultura
Jade Aura (introdução), Muriel Lima (moderação), com Tristany Mundu, Denise Santos e Francisco Frazão
A ideia de acesso à cultura continua marcada pelas incoerências territoriais gerais, pela mobilidade que não lhes dá resposta, pelas condições económicas, sociais e de classe, e pela disponibilidade dos próprios espaços e recursos em confrontarem patrimónios de exclusão. Turvas se tornam as condições que caracterizam um centro e uma periferia, e os elementos que os podem aproximar ou diferenciar. Como garantir que cada pessoa possa desenvolver e viver a sua própria vida cultural no lugar a que quer pertencer, afirmando individualidades, garantindo também um acesso que não deixa ninguém para trás? Propõe-se olhar para as desigualdades de acesso não apenas como uma questão de distância dos equipamentos culturais que se encerra nos seus agentes, antes encara-las como consequência da maneira desarticulada como a cultura e a sua prática têm sido pensadas. São também problemas de redes, transportes, preços, espaços, recursos digitais e capacidade de participação. Que condições permitem construir relações mais fortes entre territórios urbanos, periurbanos e rurais? Como requalificar espaços existentes e colocá-los ao serviço das comunidades? De que forma podem as políticas culturais assegurar um acesso efetivamente universal, desde a infância, às experiências, práticas e recursos culturais?
29 OUTUBRO | 18H
Inclusão vs hierarquias e elitismo
Telma Lopes (introdução), Jade Aura (moderação), Gil Rodrigues Ubaldo, Marri Rocha e Àkila a.k.a Puta da Silva
Quem decide o que é cultura? E quem fica de fora quando determinadas práticas, linguagens ou pessoas continuam a ser classificadas como «alta» ou «baixa» cultura? As hierarquias do setor cultural não estão apenas nos discursos sobre arte: atravessam estruturas, valores, organogramas, formas de representação e processos de decisão. Falar de inclusão implica, por isso, ir além da presença de diferentes públicos ou da representação pontual de grupos marginalizados. Implica questionar vozes a que nos habituámos, quem ocupa os lugares de decisão, quem tece narrativas e as prioridades das instituições. Como passar de uma inclusão feita a partir das quotas falsas das instituições para formas mais horizontais e coletivas de representação? O que significa reconhecer diferentes experiências e identidades sem as transformar em categorias institucionais? Queremos interrogar as hierarquias que ainda organizam e condicionam o setor cultural e discutir o que seria uma inclusão transformadora à sua raiz e matriz.
12 NOVEMBRO | 18H
Cultura digital e desafios éticos
Mário Branquinho e Lígia Afonso (introdução), Carolina Franco (moderação), com Catarina Lente, João Pedro Rodrigues e Sousa e Odete
A cultura acontece cada vez mais em ambientes digitais, mas quem define as condições em que vemos, produzimos e partilhamos cultura nesses espaços? Plataformas, algoritmos e sistemas de inteligência artificial participam hoje na circulação dos conteúdos, na construção das perceções e na própria forma como nos representamos. Quem servem? A literacia digital torna-se, neste contexto, uma condição de participação cultural. É preciso compreender os mecanismos que filtram os conteúdos, reconhecer os estereótipos e desigualdades que podem ser reproduzidos e desenvolver ferramentas para uma relação crítica com as tecnologias. Mas até onde vai a responsabilidade das instituições culturais? E que lugar devem ocupar os agentes culturais quando sistemas de inteligência artificial começam a interferir nos processos de criação, produção e mediação?
Entre o potencial de democratização e os riscos de desinformação, dependência algorítmica, impacto ambiental e substituição de trabalho, esta conversa lança uma questão central: que futuro digital queremos construir para a cultura, e quem deve participar na sua definição?
26 NOVEMBRO | 18H
Condições laborais dos trabalhadores da cultura
Jade Aura (introdução), Clara Passarinho (moderação), com Piny, Mara Pereira e Maria Leite
Produzir cultura também é trabalhar e cuidar. No entanto, o setor continua marcado por precariedade, desconhecimento dos direitos laborais, estágios e voluntariado pouco regulados, dificuldades no acesso a informação sobre carreiras, legislação e condições de trabalho. Por outro lado, emergem as discussões sobre a criação de práticas de acolhimento e de cuidado para garantir o bem-estar físico e psicológico dos agentes culturais. Para quem está a entrar no setor, conhecer estas condições é também uma forma de poder intervir sobre elas. Que direitos têm, hoje, os trabalhadores da cultura? Onde termina o voluntariado e começa o trabalho? Como impedir que estágios e primeiras experiências profissionais se transformem em formas de exploração? E que mecanismos existem e quais temos de conquistar para que artistas e outros profissionais possam conhecer, defender e exigir os seus direitos? A conversa coloca no centro a necessidade de transformar conhecimento em capacidade de ação e em ética do cuidado. Entre legislação, organização coletiva, redes e sindicatos, importa discutir de que forma trabalhadores e instituições podem contribuir para melhores condições de produção cultural e para um setor onde trabalhar na cultura não signifique abdicar de direitos.
10 DEZEMBRO
Educação Cultural e Artística
Lígia Afonso (introdução), Telma Lopes e Pedro Colaço (moderação), com Francisca Soares, Xullaji e Paula Cardoso
A relação entre cultura e educação não pode depender de visitas ocasionais, projetos isolados ou atividades extraordinárias. Se as artes e as culturas têm um papel na formação dos cidadãos, que lugar devem ocupar no quotidiano das escolas e das comunidades educativas? Esta discussão convoca a aproximação entre escolas, instituições culturais, artistas, mediadores, famílias e comunidades. Como criar processos de aprendizagem mais experimentais, diversos e próximos dos contextos dos alunos? Como garantir que os currículos refletem a pluralidade cultural das comunidades e que os próprios estudantes participam nas decisões sobre a sua aprendizagem? E será possível avaliar a educação artística apenas através de resultados quantificáveis, quando estão em causa autonomia, criatividade, curiosidade, expressão, colaboração e sentido de pertença? Mais do que acrescentar cultura ao currículo, trata-se de pensar como tornar a experiência cultural uma dimensão contínua da educação e como podem as escolas assumir também um papel de pólos culturais, capazes de formar cidadãos culturalmente ativos e participantes.