“Cintilações e Reflexos – Água” – Exposição coletiva de desenho e vídeo

Pavilhão do Conhecimento — Centro Ciência Viva | 23.07 — 11.09.2022

“Cintilações e Reflexos – Água” é uma exposição que pretende tornar sensíveis as razões pelas quais qualquer um de nós desenvolve desde tenra infância uma relação imagética com a água. É nossa intenção colaborar para um entendimento sensível deste elemento, hoje cada vez mais importante para a vida. Através de meios como o desenho e o vídeo estarão disponíveis as expressões da queda, do movimento, da ondulação, do depósito e da serenidade, do degelo, da profundidade e do reflexo.

 

 

 

 

 

ÁGUAS VIVAS: DIÁLOGO

Nos modos como a água estabelece as suas complexas articulações com o mundo natural que integra, conseguimos reconhecer muitas das questões que caraterizam o desenho, na sua relação com a produção artística. Não é tanto uma coincidência ocasional ou uma metáfora, mas uma rede de correspondências na qual as problemáticas coincidem com tanta frequência que se diria que podemos usar o mesmo mapa para dois terrenos tão radicalmente diferentes. Ambos os casos, a água e o desenho, são entidades com fronteiras e identidades complicadas, não sendo possível defini-las apenas pelos seus contornos. É a sua potência seminal, a sua transversalidade estrutural que realmente as distingue. Diz-nos a ciência que a primeira estranheza da água reside no facto de ela possuir uma estabilidade, líquida, à temperatura ambiente. Quimicamente, esta sua caraterística constitui uma extrema singularidade, e é ela que permite a possibilidade da vida, tal como a conhecemos. Universalmente reconhecida, a água, pode dizer-se, constitui uma forma de materialidade fluída por excelência, tendo sido, até há dois séculos atrás, considerada um elemento uno e indivisível. Tudo o que é vivo, tudo o que vibra e é responsivo, contém água. Todavia, a água é também o elemento mais divisivo. Para além das diferenças que estão na origem da diversidade das formas de vida, para nós, humanos, ela constitui hoje uma clivagem central. Uma em quatro pessoas (cerca de 2 biliões de humanos, ao todo) não tem acesso a água potável. E neste quarteto há uma segunda pessoa que não tem acesso, na sua habitação, a água corrente. Torna-se, portanto, evidente que água não significa o mesmo para todas elas. As fraturas, contudo, aprofundam-se. Para muitos, a sede, ou o desconhecimento da experiência da sede, é um dos efeitos mais perversos das sociedades consumistas contemporâneas. Há hoje, em muitos locais, gerações que nunca beberam água, mas apenas os seus derivados comerciais processados, fermentados, açucarados ou gasosos, com os efeitos desastrosos, a montante e a jusante, que bem conhecemos.

E da relação entre a água e o desenho?

P: Diz a expressão: “Trata do conteúdo que a forma tratará de si.” Muito a propósito, no caso da água enquanto conteúdo, a sua forma resulta sempre do contentor que a transporta. Da garrafa ao leito de um ribeiro, do jorro que sai da torneira à piscina onde mergulhamos, a forma parece estar integralmente do lado do contentor. Ela vem sempre, dir-se-ia, dos lados do mundo. Nesse sentido, desenhar a água é sempre desenhar aquilo que a (en)forma — e a informa.

R: Também para o desenho.

P: Molecularmente, a água é caracterizada pela capacidade excecional de se conectar com quase tudo. É isto que a torna tão fundamental no universo bioquímico que configura a vida. Sabemo-lo, empiricamente, quando misturamos uma bebida ou a usamos para diluir ou dissolver algo. E, no entanto, a água é, ao mesmo tempo, uma estrutura surpreendentemente estável e autónoma. A tensão superficial que nela se manifesta, nos bordos de um copo ou no líquido derramado sobre a mesa, parecem contradizer aquela facilidade que tem para diluir e misturar.

R: A extrema interação com as outras formas de expressão plástica (pintura, escultura, filme, fotografia, etc.) e a resistência em perder a sua rudimentar e eficaz identidade são, como com a água, o paradoxo mesmo do desenho.

P: Dada a sua estrutura molecular, o estado natural da água consiste na pequena esfera, perfeita, a pequena gotícula. Aparentemente, se a libertássemos de constrangimentos e condições externas, seria assim que ela se manifestava no mundo: uma infinidade de minúsculas gotas independentes.

R: Como será o desenho, se não estiver sujeito aos constrangimentos e agendas de outras práticas e técnicas artísticas? Se quisermos capturá-lo no seu “estado natural”?

P: As moléculas da água contêm surpreendentes níveis de energia. E, contudo, se esta energia está associada às imagens das grandes cascatas, ondas gigantescas, dilúvios e tsunamis, imagens que nos lembram a força… a verdade é que a placidez de um lago, a regularidade serena de um grande rio, ou a imobilidade suspensa de um glaciar convocam imagens que estão nos antípodas daquelas.

R: O desenho contém também, na sua energia háptica e mimética, a possibilidade de cobrir todo este espectro, de forma imediata e económica.

P: A mobilidade que carateriza a água não é só o movimento que a transporta, mas o próprio modo como, ao percorrer essa linhas, é, também ela, percorrida por tudo aquilo que a envolve e que com ela interage.

R: Tal como no desenho (e qual o desenho que melhor manifesta a temperatura ambiente?)

P: Quando tocamos algo, é sempre através da água que tocamos. Por outras palavras, é a água que cobre a superfície da parte do nosso corpo que toca, que está realmente a estabelecer o contacto com aquilo que tocamos. Ou, mais exatamente, com a superfície de água que cobre isso que tocamos (só em condições laboratoriais muito especiais não é assim).

R: Também na construção das formas, quaisquer formas, é através do desenho, enquanto potência processual, que lá se chega.

P: Por baixo do alcatrão e do cimento as raízes das árvores citadinas percorrem centenas de metros até encontrarem uma eventual rutura numa manilha da rede de abastecimento de água. Linhas subterrâneas, compridas e complicadas, mas não mais nem menos que os outros desenhos que configuram os corpos ou as paisagens. A configuração de uma paisagem natural é, aliás, fixada pelos cursos da água que a compõem. Não apenas os rios e os lagos, as nuvens e a chuva, mas a acumulação do solo sobre o manto rochoso, a posição das florestas e bosques, a aglomeração das zonas verdes e, consequentemente, de tudo o que disso decorre: os animais, os humanos e as cidades. R: Quais podem ser os desenhos da água? Uma arqueologia diagramática, quase infantil, em quadro didático. Mas também a genealogia do desenho do mundo.

P: A prova que a água se tornou invisível, é bem evidente na desatenção a que a condenamos. Que sabemos nós das águas que bebemos, das subtis variações que as distinguem — comparativamente com todo o saber que acumulámos sobre o vinho, a cerveja, os refrigerantes, os sumos de fruta processados, etc.?

R: E que sabemos nós do desenho, numa época que produz, a cada nova década, mais imagens desenhadas que todas aquelas que tinham sido produzidas antes?

P: A água, tal como a sua imagem, só se manifesta quando quase desaparece.

B: O desenho também.

Quando arrefecemos a água, o seu volume contrai e isso parece-nos natural. Contudo, se a temperatura continuar a descer e a água congelar, o volume, surpreendentemente, aumenta e a água dilata. É por isso que congelar uma garrafa de vidro cheia de água resulta na quebra do molde. E isso já não nos parece normal. Do mesmo modo, o ininterrupto movimento das radículas da planta na direção da água e dos nutrientes ou os processos de hidratação que integram os tecidos vivos nos demonstram que o mais familiar dos materiais, a água, é também o mais misterioso. O mais banal é também o mais precioso. E é precisamente por a água manifestar a sua forma exclusivamente nos efeitos e nas reações que produz a tudo aquilo que com ela interage, que ela se torna uma potência de perceção tão vasta e tão fértil. O paradoxo socrático “Só sei que nada sei” pode ser aplicado à nossa relação com a água, pois no que a ela diz respeito, podemos dizer que quanto mais a conhecemos, mais vasta ela se torna. Para a perceção científica, como para a artística. A água era, afinal, o contentor.

Philip Cabau

 

Enunciado de um exercício sobre a água (Licenciatura em Artes Plásticas, ESAD.CR):

 

O enunciado águas projeta um exercício sobre as inscrições efémeras: na superfície da água (por efeito de agentes externos ou internos) ou na passagem da água pelas superfícies dos materiais (marcas que se vão revelando e inscrevendo com a repetição da passagem do tempo, ou marcas fugazes apenas fixadas provisoriamente no encontro da água com essas superfícies).

O exercício deverá privilegiar o desenho de observação, mas de uma observação atenta às inscrições efémeras, nas quais o factor temporal desempenha um papel preponderante. Ele deve centrar-se sobretudo nos efeitos, ou melhor, sobre a sua tradução pelo desenho – tanto os efeitos na superfície da água, produzidas pelos agentes externos ou internos, como os efeitos da ação e passagem da água sobre outros materiais. A aparência da água, esse material ao mesmo tempo comum e singular, cuja natureza e comportamento físico e químico continuam a surpreender a ciência, deve ser aqui considerada sobretudo nessa sua capacidade de absorver e registar os efeitos do movimento. O enunciado proporciona a exploração do desenho sobre a perceção do movimento e da fluidez de uma superfície líquida e do modo como ela pode, através do desenho, revelar as suas qualidades matéricas, através dos seus movimentos e manifestações.

Este é um trabalho centrado sobretudo no modo como o desenho trata as inscrições e seus significados. A tradução visual da luz que determina as inscrições que a água revela deve incidir, mais do que sobre a cor, sobre o movimento – recorrendo, para o efeito, aos materiais que se achar convenientes (grafite, carvão, aparo, pincel e tinta da china, técnicas de monotipia, etc.). Neste sentido, o trabalho deverá evitar, na medida do possível, as distrações da cor no trabalho do desenho.

 

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Cintilações e reflexos

A primeira estranheza da água reside no facto de ela ser líquida quando na temperatura ambiente. O seu comportamento físico e químico é de uma extrema singularidade e é ela que permite à vida, tal como a conhecemos, existir. Até há dois séculos atrás a água era vista como uma entidade una e indivisível. Tudo o que é vivo, tudo o que vibra e é sentiente, contém água. Todos o sabemos e isso faz dela uma coisa universal. Mas a água é também, hoje, um assunto divisivo, o centro de uma clivagem. Em cada quatro pessoas, uma não tem acesso a água potável. E uma segunda não tem água potável corrente — essa admirável conquista civilizacional que tanto esquecemos. É assim evidente que a água não significa o mesmo para todos. Entre a aflição quotidiana da sede e aqueles que não fazem ideia do que a palavra sede significa, emerge um incomensurável e irredutível vazio.

 

Nos modos como a água estabelece, com os demais elementos do mundo natural que integra, as suas complexas articulações, reconhecemos muitas das problemáticas que caraterizam o desenho — na sua relação com o fazer artístico. Não é tanto uma coincidência pontual ou metafórica, mas uma elaborada rede de correspondências.

Entre ambos, água e desenho, são tantas as semelhanças que se diria tratar-se do mesmo mapa. Água e desenho são entidades que possuem fronteiras e identidades complexas. Para as apreender, mais que identificá-las pelos seus contornos, devemos tentar aceder à sua potência seminal, à sua transversalidade estrutural.

É esse o assunto central da exposição que agora se apresenta no Pavilhão: uma movimento pendular entre a imaginação das formas e a identificação das forças que as geram.

Nos desenhos de Narciso Correia apercebemo-nos, através da execução lenta e cuidadosa, que a forma da água não é una e previsível, mas resulta da agregação de várias forças, convergentes e divergentes, de acontecimentos e resistências.

Maria Gomes de Castro ensaia as possibilidades da cristalização de sucessivos movimentos da água, como fios líquidos ou raízes que conduzem a seiva às partes aéreas da planta. 

Nos desenhos de Gonçalo Caetano é a água violenta que se manifesta, uma água que trepa ou cai bruscamente, que se afirma ou desaba. 

Bruna Pilar mostra-nos, nos seus desenhos, uma água que se manifesta como escrita do corpo, no balanço dos braços, do olhar e do cérebro. 

Alice Nicolau apresenta uma água compósita, testemunhando uma multiplicidade de gotas, tão densa quanto literal. 

Sebastião Casanova explora, a partir de uma imagética diurna e solar, a relação da água com o feminino, um espaço lúdico de ócio e divertimento. 

A exposição apresenta também vídeos de Carolina Parrinha, Jéssica Gaspar e David Ventura. Os dois primeiros trabalhos recorrem à manipulação de imagens, enquanto que o último recorre a algoritmos para produzir imagens  estruturalmente imprevisíveis. Carolina Parrinha lembra-nos no seu vídeo, que a água foi o primeiro espelho, e a primeira reflexão para o rosto e para a paisagem. Jéssica Gaspar manipula em estúdio uma massa de gelo, que suspensa se assemelha a um planeta em chamas e a derreter, impossível a este propósito deixar de pensar por imagens no aquecimento global. David Ventura parte de uma fotografia de uma gota de água para realizar dois exercícios de programação opostos, o de agregação em Water e o de desagregação em Rheta.  

Esta exposição primeiramente apresentada no Centro de Ciência Viva do Alviela, vem agora a Lisboa, compondo, juntamente com a exposição Água – uma exposição sem filtro, uma tentativa de relacionar as experiências expressivas da arte com as da literacia para a ciência.

Samuel Rama

 

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Notas biográficas dos artistas

David Ventura é um artista digital que explora a configuração da matéria que resulta da manipulação das leis da física. A gravitação, as partículas que compõem a estrutura dos objetos e a perceção do tempo são distorcidas até à exaustão, ao ponto em que estas forças invisíveis conseguem manifestar-se na anatomia de um corpo visível.

Jéssica Gaspar concluiu a licenciatura na Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias de Lisboa e neste momento, está a concluir o mestrado de Artes Plásticas na Escola Superior de Artes e Design das Caldas da Rainha. Com o seu trabalho procura criar uma experiência sensorial através de peças imersivas, combinando imagem, some diferentes media. Interessa-lhe submergir o observador e manipular a sua perceção criando ilusões ou imagens hipnóticas. Procuro também, criar ambientes que induzam o observador num certo estado, e que tenham uma potencialidade transformadora, através do trabalho com estímulos não só visuais.

Por outro lado, os seus trabalhos têm como base uma ligação com a natureza, resultando de trabalho de campo e de interação com a mesma, da observação dos ciclos de crescimento e passagem do tempo sobre as formas e matérias orgânicas. Assim, preocupam-na também questões relacionadas com a solastalgia, sustentabilidade e eco consciência, bem como a aproximação do homem ao mundo natural.

Sebastião Casanova nasceu em 1995 em Coimbra. Vive e trabalha nas Caldas da Rainha, onde frequentou o curso de Artes Plásticas da Escola Superior de Arte e Design. A sua obra gira em torno de um universo cosmográfico em que a realidade íntima, o cinema e a poesia se relacionam como alicerces do seu imaginário ficcional. Os personagens e espaços que cria, refletem a procura de um entendimento sobre o que é ser humano, num reino onde as culturas, os estereótipos e o erotismo existem em turbulência constante. Através de uma prática multidisciplinar – pintura, fotografia, vídeo e performance – essas dinâmicas conflitantes convergem numa dramatização mnésica. Atualmente, trabalha predominantemente em vídeo e pintura.

Alice Nicolau nasceu em 1998 nas Caldas da Rainha. Licenciou-se em Artes Plásticas pela Escola Superior de Artes e Design das Caldas da Rainha em 2019. Atualmente vive e trabalha nas Caldas da Rainha, onde partilha um estúdio com o artista plástico e ex-colega de escola Pedro Rodrigues no Silos Contentor Criativo. Tem desenvolvido o seu trabalho maioritariamente em pintura, fotografia e gravura, explorando diversas composições aleatórias, com foco na linha como expressão. Atualmente o seu trabalho está focado em pintura em tela com materiais mistos.

Bruna Pilar nasceu em Lisboa, em 1998. Frequentou o Curso de Realização Plástica do Espetáculo, na Escola Artística António Arroio. Concluiu a Licenciatura em Artes Plásticas, na Escola Superior de Artes e Design das Caldas da Rainha e mais recentemente deu por terminado o Curso de Design de Interiores na Lisbon School of Design em Lisboa.

Gonçalo Caetano nasceu em Portimão em 1999. Recentemente, concluiu a Licenciatura em Artes Plásticas na Escola Superior de Artes e Design das Caldas da Rainha. Atualmente o seu trabalho relaciona-se com a questão da sombra e como esta se pode constituir como modelo para registo pictórico dinâmico, operando em diversos suportes, meios e lugares.

Maria Madalena Gomes de Castro nasceu em Guimarães, em 1998. Estudou Artes Plásticas na Escola Superior de Artes e Design de Caldas da Rainha (ESAD.CR).

Narciso Correia nasceu em Óbidos, em 1953, frequentou a Sociedade Nacional de Belas Artes (Curso de Formação Artística) entre 2004 e 2011. Em 2017 ingressou na Licenciatura de Artes Plásticas da Escola Superior de Artes e Design – Caldas da Rainha, tendo concluído em 2020.

 

FICHA TÉCNICA:

Programação e Curadoria
Samuel Rama e Philip Cabau

Produção
Bibliotecas dos Serviços de Documentação do Politécnico de Leiria
Sónia Gonçalves

Design Gráfico
Francisco Moreira

Comunicação
Francisco Moreira, Liliana Gonçalves, Sónia Gonçalves